| Por Carolina Canossa
Há 16 anos alinhando no grid de largada da Fórmula
1, o paulistano Rubens Barrichello é um dos esportistas
brasileiros que mais tem histórias a contar. Duas vezes
vice-campeão mundial e vencedor de nove corridas da
categoria, o piloto recentemente comemorou o fim de um jejum
de 22 provas sem pontuar. E, apesar de ainda estar sofrendo
com as limitações do carro da Honda, assegura
que se mantém extremamente motivado, sentimento oriundo
do apoio da família e de uma nova maneira de encarar
cada etapa do Mundial.
“Depois de uns sete ou oito anos, como você sempre
pega o mesmo avião, no mesmo lugar, você chega
a um platô e se motivar para isso é difícil.
Só que eu passei por este ponto e aí comecei
a ver graça em outras coisas também”,
explicou o piloto, referindo-se ao fato de constantemente
levar a esposa Silva e os filhos Eduardo e Fernando para passear
nos países em que as provas são realizadas.
Em conversa exclusiva com a Gazeta Esportiva.Net,
Barrichello falou sobre diversos assuntos com grande sinceridade.
Entre outras coisas, admitiu que teve seu tapete puxado pela
Ferrari no período em que defendeu a equipe, mas afirma
que não se arrepende de ter deixado Michael Schumacher
lhe ultrapassar nos últimos metros do GP da Áustria
de 2002, em um episódio até hoje lembrado como
um dos momentos mais vergonhosos da história da Fórmula
1. “Aquilo mostrou para o Brasil e para o mundo inteiro
uma coisa que eu vinha carregando há muito tempo, de
ter que tirar o pé”, justifica o piloto.
Ele também aproveitou a oportunidade para responder
ao tricampeão mundial Nelson Piquet, que questionado
a respeito do recorde de Barrichello às vésperas
do último GP da Espanha, debochou do compatriota, dizendo
que o Rubinho precisava arrumar um recorde para ele. “Acho
que a vida está aí para mostrar e o próprio
filho está comendo tudo aquilo o que o Nelson plantou”,
disparou o piloto da Honda, que em rápida passagem
pelo Brasil, competiu na II Taça México de Golfe,
um de seus hobbies favoritos. “É uma felicidade
poder sair no meio do verde e bater na bola. O golfe tem aquela
qualidade que se você está com raiva, bate na
bola e passa”, comentou.
| Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press |
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GE.Net: Depois do recorde de GPs, onde mais você
quer chegar?
RB: Tudo aquilo que a gente faz
na vida só tem um limite porque o ser humano estabelece
isso. Eu venho quebrando essas barreiras e hoje tenho um prazer
muito maior em guiar do que tinha antigamente. Consigo utilizar
essa energia boa para o carro e a energia ruim deixo de lado.
Lógico que eu tenho um sonho de ser campeão
do mundo, não sei se isso vai ser possível,
mas eu vou lutar enquanto estiver guiando. Enquanto tiver
este prazer, tenho que continuar. Não tenho contrato
para o ano que vem, mas dependendo dos resultados isso é
uma questão de tempo. Eu espero continuar guiando ainda
por mais uns dois anos.
GE.Net: Pode ser fora da Fórmula 1?
RB: Meu objetivo é Fórmula
1. São 16 anos na categoria e, por enquanto, não
tenho nenhum intuito de sair.
GE.Net: Você recebeu muitas homenagens e elogios
com o seu recorde de GP, mas algumas pessoas continuaram te
achincalhando, como o Nelson Piquet. O que você tem
a dizer para estas pessoas?
RB: Não tenho nada a dizer.
Acho que a vida está aí para mostrar e o próprio
filho está comendo tudo aquilo o que ele plantou. Essas
coisas são ruins, não fazem parte do dia-a-dia.
O ser humano deveria tomar conta da própria vida e
não ficar comentando.
GE.Net: Sendo um piloto experiente, como você
vê essa pressão toda em cima do Felipe Massa,
do Nelsinho Piquet...?
RB: O grande problema é que
há uma certa invasão do mundo afora perante
o piloto. O Nelsinho, por ser filho de um tricampeão,
foi sempre muito falado e a expectativa é muito grande.
Então, quando os resultados não vêm, a
pressão cresce. Mas é uma coisa natural e se
você conseguir ter um resultado, tudo muda. O Massa,
por exemplo, tinha zero pontos no começo do ano, caíram
matando, ele ganhou uma prova e pronto. Na Fórmula
1, você é tão bom quanto a sua última
prova.
Gazeta Esportiva.Net: Como foi para você e
a equipe chegar na zona de pontuação em Mônaco,
depois de tanto tempo?
Rubens Barrichello: Foi ótimo,
porque é uma diferença muito grande: há
três anos eu lutava por vitória. Não que
hoje eu fale “Não luto mais e vou ficar contente
com os três pontos”, mas eles foram muito comemorados,
porque afinal de contas a Fórmula 1 é um campeonato
disputado e eu venho de um ano complicado, em que tive um
carro ruim. Com isso, você muda um pouco o seu limite
de comemoração. Agora estou comemorando os três
pontos, mas com certeza este ano trará ainda muito
mais alegrias.
GE.Net: A mentalização que você
pediu para a equipe funcionou, não?
RB: Engraçado que aconteceu
mesmo. Como meu aniversário foi na sexta (23 de maio),
os membros da equipe me deram um presente. Aí você
fica naquela condição sem graça, com
eles esperando você falar alguma coisa. E eu disse:
“Olha, eu queria que todos vocês mentalizassem
aquilo que a gente quer muito, ou seja, tirar esse peso do
jejum de pontos das costas”. E a gente mentalizou ali
uns dois segundinhos por pontos e eles vieram com uma alegria
muito grande.
GE.Net: Você esperava pontuar logo na prova
em Mônaco, que além de caótica, você
enfrentou um problema com o seu motor quase morrendo nas primeiras
voltas?
RB: Eu passei dois adversários,
depois três me passaram porque, apesar de o motor de
Fórmula 1 não morrer, entra ponto morto e aí
no meio da curva eu tentando achar a embreagem. Em uma corrida
assim você tem que deixar a mente aberta. As linhas
brancas são muito escorregadias, mas o que mais me
atrapalhou mesmo foi o Trulli. De uma certa forma, o carro
estava muito bom e, quando isso acontece, você tem essa
motivação extra.
GE.Net: Foi uma corrida onde até o Kimi fez
barbeiragem com o coitado do Sutil...
RB: Coitado mesmo, pois o menino
fez uma grande prova. Se bem que, na minha visão, ele
tomaria um penalty de 25 segundos porque no acidente do Alonso
e do Heidfeld, o Sutil me passou em bandeira amarela. De qualquer
maneira, é uma prova que dá muitas chances para
as equipes menores, como a Force India e até a Honda.
Na verdade, de menor a Honda não tem nada, mas é
que o carro não está tão bem. Mônaco
é uma prova para fazer pontos e eu cheguei no final
de semana encarando desse jeito.
GE.Net: Próxima etapa do campeonato, Montreal
é um circuito muito rápido e você tem
falado que o carro possui grande dificuldade em reta, com
a Williams chegando a ser 10km/h mais rápida nestas
situações. Existe uma expectativa de evolução
até lá?
RB: A gente não sabe, pois
a corrida de Montreal tem uma aerodinâmica específica,
entre Monza e entre o resto de todos os circuitos. É
uma aerodinâmica para chegar entre 315km/h e 320km/h.
Ela é toda específica e a gente não treinou
desta forma porque choveu nos testes coletivos de Paul Ricard.
Eu tenho esta dificuldade muito grande em retas, mas se o
carro tiver um bom balanço de freada, a coisa evolui
e dá para ter alguma perspectiva. Caso contrário,
será uma prova difícil.
GE.Net: Recentemente a Super Aguri fechou as portas.
Você acha que a Fórmula 1 está cada vez
mais na mão de montadoras?
RB: Se você realmente não
tiver o apoio de uma montadora, é difícil. A
Honda estava dividindo as atenções e teve que
tirar um pouco de apoio de um lado e acabou desmontando a
outra equipe. É muito difícil mesmo e acho que
no futuro a Fórmula 1 vai ser baseada mesmo em montadoras.
GE.Net: O Rubinho tem falado muito em motivação
nas últimas semanas por conta do recorde de piloto
que mais vezes disputou etapas da Fórmula 1. Depois
de tantos anos na categoria, de onde você tira esta
animação?
RB: É cansativo. Depois de
uns sete ou oito anos, como você sempre pega o mesmo
avião, no mesmo lugar, você chega a um platô
e se motivar para isso é difícil. Só
que eu passei por este ponto e aí comecei a ver graça
em outras coisas também. Na Hungria, por exemplo, a
pista é muito difícil, mas a cidade é
muito legal, então você leva sua família
para se divertir. Você acaba agregando as coisas e faz
da corrida um evento mais legal.
GE.Net: Sua família tem ido com você
aos GPs?
RB: O Eduardo tem seis anos e está
na escola, mas todos foram para Mônaco, por exemplo.
Como eu moro lá, sei que no dia-a-dia não tem
nada, mas em um final de semana de corrida tudo é muito
cheio e você não tem privacidade nenhuma. E o
fato de sua família estar lá te ajuda a dissipar
esta energia negativa.
GE.Net: Mas os filhos não pedem para você
ficar mais em casa, com eles...?
RB: Eles adoram a corrida também.
O grandinho já chegou a falar isso, mas ele sabe que
essa é a minha vida e não há o que fazer.
GE.Net: Em algum momento você chegou a pensar
em largar tudo?
RB: No começo, que é
sempre o mais difícil. Quando a gente perdeu Ayrton,
foi uma época difícil, de pressão. Nos
primeiros momentos, se falou bastante de ir para a Fórmula
Mundial e muitos amigos meus foram. Aí, você
começa a pensar em como o barco vai andar... mas graças
a Deus, eu fiquei na Fórmula 1 e esta foi a melhor
coisa que eu fiz na vida.
GE.Net: Olhando a sua trajetória, qual seria
o ponto alto e o ponto em que você se arrepende?
RB: Eu faria tudo de novo. Tudo,
tudo, tudo...
| Foto: Reuters /Gazeta Press |
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| Schumacher entrega troféu a Rubinho
na Áustria-2002 |
GE.Net: Mesmo aquele GP da Áustria de 2002
(na ocasião, por ordem da Ferrari, Rubinho diminuiu
a velocidade e deixou Michael Schumacher passá-lo em
cima da linha de chegada)?
RB: Aquilo foi a melhor coisa que
me aconteceu porque mostrou para todos tudo o que só
eu sabia. Mostrou para o Brasil e para o mundo inteiro uma
coisa que eu vinha carregando há muito tempo, de ter
que tirar o pé... No final, o troféu é
meu e todo mundo viu que eu ganhei. Para mim, aquilo foi muito
positivo.
GE.Net: E mudou algo nos três anos que você
ainda continuou na Ferrari?
RB: A grande dificuldade foi em
2005 porque a gente já não lutava por vitória.
Aí sim achei que estavam tirando o meu tapete, aí
eu fiquei sem chão. Quando a gente lutava pelo primeiro
e segundo lugar era uma situação diferente,
mas quando estávamos lutando pelo quinto, sexto e eles
continuando a puxar meu tapete, achei que não valia
a pena. O intuito da equipe, na minha opinião, era
chegar um em terceiro e outro em oitavo, ao invés de
quinto e sexto. E aquela história de ficar ajudando,
ajudando... deu no que deu (a saída dele da escuderia,
no final da temporada).
GE.Net: Com esse carro da Honda, ainda é possível
manter vivo o sonho de título?
RB: É um trabalho duro, mas
com futuro. Eu saí da Ferrari achando que iria encontrar
uma coisa que não encontrei. Bati meio que de frente
com alguns tipos de situações do carro que não
eram favoráveis para mim. Aí, fui tendo que
rever as situações, mudando, trabalhando para
que alguém pudesse entrar e acho que o Ross Brawn (atual
chefe da Honda, apontado como um dos responsáveis pela
Ferrari ter dominado a Fórmula 1 no início dos
anos 2000) foi a pessoa mais certa neste caso. Agora,
é projeto para frente. Não faz três anos
eu ia para a pista brigar por vitórias e hoje fico
contente com pouco, três pontos. Mas a vida é
assim e a ambição de ganhar ainda é muito
grande. No ano que vem, acho que vamos ter uma condição
melhor porque será um outro regulamento.
GE.Net: Recentemente, você disse que a Honda
pode ser a equipe do futuro. O que te leva a crer nisto?
RB: Justamente esta condição
de regulamento novo, de começar do zero, com um Ross
há um ano lá e uma condição financeira
de suporte Isso nos dá a chance de a gente ter um carro
bom e irmos para frente.
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