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02/06/2008
Montagem sobre fotos de Fernando Pilatos/Gazeta Press e AFP

Por Carolina Canossa

Há 16 anos alinhando no grid de largada da Fórmula 1, o paulistano Rubens Barrichello é um dos esportistas brasileiros que mais tem histórias a contar. Duas vezes vice-campeão mundial e vencedor de nove corridas da categoria, o piloto recentemente comemorou o fim de um jejum de 22 provas sem pontuar. E, apesar de ainda estar sofrendo com as limitações do carro da Honda, assegura que se mantém extremamente motivado, sentimento oriundo do apoio da família e de uma nova maneira de encarar cada etapa do Mundial.

“Depois de uns sete ou oito anos, como você sempre pega o mesmo avião, no mesmo lugar, você chega a um platô e se motivar para isso é difícil. Só que eu passei por este ponto e aí comecei a ver graça em outras coisas também”, explicou o piloto, referindo-se ao fato de constantemente levar a esposa Silva e os filhos Eduardo e Fernando para passear nos países em que as provas são realizadas.

Em conversa exclusiva com a Gazeta Esportiva.Net, Barrichello falou sobre diversos assuntos com grande sinceridade. Entre outras coisas, admitiu que teve seu tapete puxado pela Ferrari no período em que defendeu a equipe, mas afirma que não se arrepende de ter deixado Michael Schumacher lhe ultrapassar nos últimos metros do GP da Áustria de 2002, em um episódio até hoje lembrado como um dos momentos mais vergonhosos da história da Fórmula 1. “Aquilo mostrou para o Brasil e para o mundo inteiro uma coisa que eu vinha carregando há muito tempo, de ter que tirar o pé”, justifica o piloto.

Ele também aproveitou a oportunidade para responder ao tricampeão mundial Nelson Piquet, que questionado a respeito do recorde de Barrichello às vésperas do último GP da Espanha, debochou do compatriota, dizendo que o Rubinho precisava arrumar um recorde para ele. “Acho que a vida está aí para mostrar e o próprio filho está comendo tudo aquilo o que o Nelson plantou”, disparou o piloto da Honda, que em rápida passagem pelo Brasil, competiu na II Taça México de Golfe, um de seus hobbies favoritos. “É uma felicidade poder sair no meio do verde e bater na bola. O golfe tem aquela qualidade que se você está com raiva, bate na bola e passa”, comentou.

Foto: Fernando Pilatos/Gazeta Press
GE.Net: Depois do recorde de GPs, onde mais você quer chegar?
RB: Tudo aquilo que a gente faz na vida só tem um limite porque o ser humano estabelece isso. Eu venho quebrando essas barreiras e hoje tenho um prazer muito maior em guiar do que tinha antigamente. Consigo utilizar essa energia boa para o carro e a energia ruim deixo de lado. Lógico que eu tenho um sonho de ser campeão do mundo, não sei se isso vai ser possível, mas eu vou lutar enquanto estiver guiando. Enquanto tiver este prazer, tenho que continuar. Não tenho contrato para o ano que vem, mas dependendo dos resultados isso é uma questão de tempo. Eu espero continuar guiando ainda por mais uns dois anos.

GE.Net: Pode ser fora da Fórmula 1?
RB: Meu objetivo é Fórmula 1. São 16 anos na categoria e, por enquanto, não tenho nenhum intuito de sair.

GE.Net: Você recebeu muitas homenagens e elogios com o seu recorde de GP, mas algumas pessoas continuaram te achincalhando, como o Nelson Piquet. O que você tem a dizer para estas pessoas?
RB: Não tenho nada a dizer. Acho que a vida está aí para mostrar e o próprio filho está comendo tudo aquilo o que ele plantou. Essas coisas são ruins, não fazem parte do dia-a-dia. O ser humano deveria tomar conta da própria vida e não ficar comentando.

GE.Net: Sendo um piloto experiente, como você vê essa pressão toda em cima do Felipe Massa, do Nelsinho Piquet...?
RB: O grande problema é que há uma certa invasão do mundo afora perante o piloto. O Nelsinho, por ser filho de um tricampeão, foi sempre muito falado e a expectativa é muito grande. Então, quando os resultados não vêm, a pressão cresce. Mas é uma coisa natural e se você conseguir ter um resultado, tudo muda. O Massa, por exemplo, tinha zero pontos no começo do ano, caíram matando, ele ganhou uma prova e pronto. Na Fórmula 1, você é tão bom quanto a sua última prova.

Gazeta Esportiva.Net: Como foi para você e a equipe chegar na zona de pontuação em Mônaco, depois de tanto tempo?
Rubens Barrichello: Foi ótimo, porque é uma diferença muito grande: há três anos eu lutava por vitória. Não que hoje eu fale “Não luto mais e vou ficar contente com os três pontos”, mas eles foram muito comemorados, porque afinal de contas a Fórmula 1 é um campeonato disputado e eu venho de um ano complicado, em que tive um carro ruim. Com isso, você muda um pouco o seu limite de comemoração. Agora estou comemorando os três pontos, mas com certeza este ano trará ainda muito mais alegrias.

GE.Net: A mentalização que você pediu para a equipe funcionou, não?
RB: Engraçado que aconteceu mesmo. Como meu aniversário foi na sexta (23 de maio), os membros da equipe me deram um presente. Aí você fica naquela condição sem graça, com eles esperando você falar alguma coisa. E eu disse: “Olha, eu queria que todos vocês mentalizassem aquilo que a gente quer muito, ou seja, tirar esse peso do jejum de pontos das costas”. E a gente mentalizou ali uns dois segundinhos por pontos e eles vieram com uma alegria muito grande.

GE.Net: Você esperava pontuar logo na prova em Mônaco, que além de caótica, você enfrentou um problema com o seu motor quase morrendo nas primeiras voltas?
RB: Eu passei dois adversários, depois três me passaram porque, apesar de o motor de Fórmula 1 não morrer, entra ponto morto e aí no meio da curva eu tentando achar a embreagem. Em uma corrida assim você tem que deixar a mente aberta. As linhas brancas são muito escorregadias, mas o que mais me atrapalhou mesmo foi o Trulli. De uma certa forma, o carro estava muito bom e, quando isso acontece, você tem essa motivação extra.

GE.Net: Foi uma corrida onde até o Kimi fez barbeiragem com o coitado do Sutil...
RB: Coitado mesmo, pois o menino fez uma grande prova. Se bem que, na minha visão, ele tomaria um penalty de 25 segundos porque no acidente do Alonso e do Heidfeld, o Sutil me passou em bandeira amarela. De qualquer maneira, é uma prova que dá muitas chances para as equipes menores, como a Force India e até a Honda. Na verdade, de menor a Honda não tem nada, mas é que o carro não está tão bem. Mônaco é uma prova para fazer pontos e eu cheguei no final de semana encarando desse jeito.

GE.Net: Próxima etapa do campeonato, Montreal é um circuito muito rápido e você tem falado que o carro possui grande dificuldade em reta, com a Williams chegando a ser 10km/h mais rápida nestas situações. Existe uma expectativa de evolução até lá?
RB: A gente não sabe, pois a corrida de Montreal tem uma aerodinâmica específica, entre Monza e entre o resto de todos os circuitos. É uma aerodinâmica para chegar entre 315km/h e 320km/h. Ela é toda específica e a gente não treinou desta forma porque choveu nos testes coletivos de Paul Ricard. Eu tenho esta dificuldade muito grande em retas, mas se o carro tiver um bom balanço de freada, a coisa evolui e dá para ter alguma perspectiva. Caso contrário, será uma prova difícil.

GE.Net: Recentemente a Super Aguri fechou as portas. Você acha que a Fórmula 1 está cada vez mais na mão de montadoras?
RB: Se você realmente não tiver o apoio de uma montadora, é difícil. A Honda estava dividindo as atenções e teve que tirar um pouco de apoio de um lado e acabou desmontando a outra equipe. É muito difícil mesmo e acho que no futuro a Fórmula 1 vai ser baseada mesmo em montadoras.

GE.Net: O Rubinho tem falado muito em motivação nas últimas semanas por conta do recorde de piloto que mais vezes disputou etapas da Fórmula 1. Depois de tantos anos na categoria, de onde você tira esta animação?
RB: É cansativo. Depois de uns sete ou oito anos, como você sempre pega o mesmo avião, no mesmo lugar, você chega a um platô e se motivar para isso é difícil. Só que eu passei por este ponto e aí comecei a ver graça em outras coisas também. Na Hungria, por exemplo, a pista é muito difícil, mas a cidade é muito legal, então você leva sua família para se divertir. Você acaba agregando as coisas e faz da corrida um evento mais legal.

GE.Net: Sua família tem ido com você aos GPs?
RB: O Eduardo tem seis anos e está na escola, mas todos foram para Mônaco, por exemplo. Como eu moro lá, sei que no dia-a-dia não tem nada, mas em um final de semana de corrida tudo é muito cheio e você não tem privacidade nenhuma. E o fato de sua família estar lá te ajuda a dissipar esta energia negativa.

GE.Net: Mas os filhos não pedem para você ficar mais em casa, com eles...?
RB: Eles adoram a corrida também. O grandinho já chegou a falar isso, mas ele sabe que essa é a minha vida e não há o que fazer.

GE.Net: Em algum momento você chegou a pensar em largar tudo?
RB: No começo, que é sempre o mais difícil. Quando a gente perdeu Ayrton, foi uma época difícil, de pressão. Nos primeiros momentos, se falou bastante de ir para a Fórmula Mundial e muitos amigos meus foram. Aí, você começa a pensar em como o barco vai andar... mas graças a Deus, eu fiquei na Fórmula 1 e esta foi a melhor coisa que eu fiz na vida.

GE.Net: Olhando a sua trajetória, qual seria o ponto alto e o ponto em que você se arrepende?
RB: Eu faria tudo de novo. Tudo, tudo, tudo...

Foto: Reuters /Gazeta Press
Schumacher entrega troféu a Rubinho na Áustria-2002

GE.Net: Mesmo aquele GP da Áustria de 2002 (na ocasião, por ordem da Ferrari, Rubinho diminuiu a velocidade e deixou Michael Schumacher passá-lo em cima da linha de chegada)?
RB: Aquilo foi a melhor coisa que me aconteceu porque mostrou para todos tudo o que só eu sabia. Mostrou para o Brasil e para o mundo inteiro uma coisa que eu vinha carregando há muito tempo, de ter que tirar o pé... No final, o troféu é meu e todo mundo viu que eu ganhei. Para mim, aquilo foi muito positivo.

GE.Net: E mudou algo nos três anos que você ainda continuou na Ferrari?
RB: A grande dificuldade foi em 2005 porque a gente já não lutava por vitória. Aí sim achei que estavam tirando o meu tapete, aí eu fiquei sem chão. Quando a gente lutava pelo primeiro e segundo lugar era uma situação diferente, mas quando estávamos lutando pelo quinto, sexto e eles continuando a puxar meu tapete, achei que não valia a pena. O intuito da equipe, na minha opinião, era chegar um em terceiro e outro em oitavo, ao invés de quinto e sexto. E aquela história de ficar ajudando, ajudando... deu no que deu (a saída dele da escuderia, no final da temporada).

GE.Net: Com esse carro da Honda, ainda é possível manter vivo o sonho de título?
RB: É um trabalho duro, mas com futuro. Eu saí da Ferrari achando que iria encontrar uma coisa que não encontrei. Bati meio que de frente com alguns tipos de situações do carro que não eram favoráveis para mim. Aí, fui tendo que rever as situações, mudando, trabalhando para que alguém pudesse entrar e acho que o Ross Brawn (atual chefe da Honda, apontado como um dos responsáveis pela Ferrari ter dominado a Fórmula 1 no início dos anos 2000) foi a pessoa mais certa neste caso. Agora, é projeto para frente. Não faz três anos eu ia para a pista brigar por vitórias e hoje fico contente com pouco, três pontos. Mas a vida é assim e a ambição de ganhar ainda é muito grande. No ano que vem, acho que vamos ter uma condição melhor porque será um outro regulamento.

GE.Net: Recentemente, você disse que a Honda pode ser a equipe do futuro. O que te leva a crer nisto?
RB: Justamente esta condição de regulamento novo, de começar do zero, com um Ross há um ano lá e uma condição financeira de suporte Isso nos dá a chance de a gente ter um carro bom e irmos para frente.


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